
Concentradas para a disputa da Copa do Mundo de Futebol Feminino, as jogadoras de Guiné Equatorial tomaram um susto grande quando acessaram a internet no último sábado, véspera de partida contra a Austrália. Em meio a uma campanha recheada por suspensões, lesões e até suspeitas quanto à feminilidade de duas atletas, elas souberam que estavam de fora da seletiva dos Jogos Olímpicos de Londres por conta de uma decisão superior. Mais uma situação embaraçosa, em meio ao segundo jogo no Mundial, e que Marcello Frigério, treinador brasileiro de Guiné, precisou contornar para jogar o torneio.
Quatro meses é só o tempo em que ele está no cargo, mas praticamente de tudo Marcello viu acontecer. "Eles não têm vivência profissional e a desorganização foi minando o meu programa", conta em entrevista exclusiva ao Terra o treinador, que sequer conseguiu disputar amistosos até a viagem à Alemanha. "Íamos fazer pré-temporada e houve problemas. Eu não sabia quem eram as jogadoras, não sabia quem ia tremer ou não. Você pode tirar e pôr uma que vai tremer também. É terrível", resume Frigério, que assumiu o cargo graças à indicação de próprias jogadoras: são seis brasileiras na seleção de Guiné.
Esse adversário tão íntimo, com atletas e treinador brasileiro, é o que terá pela frente a Seleção de Marta. Já classificada, na próxima quarta-feira, mede forças com Guiné, em Frankfurt, na Commerzbank-Arena. "Pela dimensão desse Mundial, vou torcer para o Brasil, para que possa crescer. Com o título, as jogadoras vão poder reivindicar e aí as pessoas vão ter de olhar e dar uma explicação", afirma Frigério.
Ele aponta satisfação pela campanha de zero ponto, mas de jogos duros contra norueguesas (perdeu por 1 a 0) e australianas (perdeu por 3 a 2). "Fizemos um Mundial digno. Até bola com a mão na área elas seguraram", gargalha se referindo ao polêmico lance de Bruna contra a Austrália. "Não foi como eu queria, mas mesmo assim deixamos uma boa impressão", fala o treinador, que na quarta fecha sua participação contra o Brasil. E também o trabalho de bombeiro que precisou realizar.
Problemas, problemas e mais problemas
Em seu time considerado ideal para a Copa do Mundo, Marcello Frigério perdeu duas atletas ainda durante a preparação e por problemas diversos. "Uma jogadora, fundamental no nosso esquema, foi suspensa por causa de cidadania. Já outra, importantíssima também, estourou o ligamento cruzado do joelho", lamenta o treinador. "A mãe da nossa goleira morreu e ela precisou ir ao Brasil". Ele ainda teria outras situações para contornar.
A principal delas, sem dúvida, as acusações de Nigéria e Gana a respeito de três de suas jogadoras, que em tese não seriam mulheres, e sim homens. O fato de duas delas serem cortadas aguçou ainda mais a curiosidade geral, mas Marcello explica. "Essa foi a coisa mais chata do Mundial. Na primeira partida que fiz, uma delas não atendeu a convocação porque a irmã estava machucada. As africanas são assim: se uma não vem, a outra não vai. Depois, desisti de chamar. Os rivais africanos estão incomodados", sugere.
Se já não bastassem tantas dificuldades na preparação, Frigério precisou motivar o ambiente ainda durante o Mundial. Por conta dos problemas na cidadania de uma das jogadoras, Guiné Equatorial foi excluída da seletiva para Londres 2012. As atletas descobriram isso no último sábado, véspera do duelo contra a Austrália. "Imagina como elas ficaram", lamenta.
Um facilitador ao trabalho de Frigério, por outro lado, foi a quantidade grande de jogadoras familiares: são seis brasileiras no elenco de 21, quase todas titulares. "O pai e a mãe de uma moraram em Guiné, outra o avô tem cidadania...elas têm ligação. E também tem outras de Nigéria, Camarões...a África é uma bagunça", justifica. Ao jornal Folha de S. Paulo, o ex-treinador da Seleção Brasileira, Ademar Fonseca Jr, acusou as atletas de receber US$ 15 mil pela mudança.
Em meio a tantas turbulências e nenhum ponto conquistado, ele acredita ter saído no lucro. "Estar aqui é o ápice para qualquer treinador e uma abertura para voltar em uma próxima se tiver oportunidade em algum país. Aprendi muitas coisas", avalia, de saída para um provável retorno ao futebol brasileiro. "Sem Olimpíada, não faz sentido ficar em Guiné. Mas é um Mundial digno". A receita para quebrar os 100% do Brasil? "Não deixar a Marta jogar, né? Isso todos falam (risos). Se ela não joga, tem a Rosana, a Cristiane e por aí vai".
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